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  • Pedro Ferraz da Costa, economista, industrial, agricultor, presidente do Forum para a Competitividade, antigo presidente da Confederação da Indústria Portuguesa, membro do Conselho Consultivo da Licenciatura

Sempre gostei de falar com gente nova.Quase sempre sobre o que gostavam de vir a ser, a fazer.   E sempre me fez impressão quer a forma como identificam curso com profissão,quer a ideia de que cada curso é um pacote,relativamente imutável, de conteúdos adaptado ao exercício da profissão desejada.    Quantas vezes com
um conhecimento superficial das características de personalidade necessárias.    Todas as dificuldades da escolha se agravam quando a família tem poucos conhecimentos sobre as diferentes opções.   E torna-se ainda mais difícil quando a escolha tem de ser feita antes da conclusão do 9º ano.  Tive colegas que,sendo até bons alunos e oriundos de famílias cultas,mudaram de curso tendo que perder os anos que gastaram até optar pela mudança, mais os necessários a repetir o ciclo preparatório para o novo curso. Quanto mais não fosse, só por estas razões -mais maturidade com uma escolha menos precoce e maior facilidade em adaptar o plano de estudos às preferencias identificadas nos primeiros tempos de universidade-já se justificaria a existência de um curso mais flexível, com um conjunto de conhecimentos mais alargado.   E que,por isso permitisse ao aluno ir construindo a sua formação universitária,por que é disso que se trata,de acordo com as suas capacidades.  
Mas há outras razões para saudar uma licenciatura em Estudos Gerais.   A possibilidade de completar conhecimentos técnicos-o que podemos fazer e como,com a  compreensão do que devemos e não devemos fazer.   Os conhecimentos técnicos e a cultura e os valores.  A rapidez com que os conhecimentos se tornam obsoletos exige uma preparação ao longo da vida,uma renovação permanente de competencias.Será cada vez mais importante perceber em que sentido vamos evoluir para antecipar as necessidades do futuro.   E,para isso, as competencias técnicas não são,só por si,suficientes.  Não é por acaso que em muitos países os líderes das maiores organizações são técnicos licenciados com doutoramentos em humanidades.   E é pela mesma razão  que para a compreensão da evolução da humanidade não nos chega a literatura técnica.Um curso com estas características formará pessoas mais completas.

  • R. M. Rosado Fernandes,  classicista, agricultor, conselho de curadores da Fundação Francisco Manuel dos Santos, antigo Reitor da Universidade de Lisboa, antigo deputado europeu, antigo presidente da Confederação da Agrigultura Portuguesa, membro do Conselho Consultivo da Licenciatura

 

Desde o fim da última guerra mundial, 1947, em que em Genebra se discutiram dois temas: “Pour un nouvel Humanisme” e “Progrès Téchnique et Progrès Moral”, com a intervenção escrita de espiritualistas, de teólogos, de cientistas e de humanistas, que se começou a sentir que o Ser Humano, se aprendia o suficiente em zonas bem determinadas e especializadas, era abandonado ao seu destino e porventura pessoal curiosidade, se humanista, no sector das ciências exactas e da Natureza, se cientista, no sector das ciências Humanas. O projecto de realizar, seguindo plano bem antigo da universidade olissiponense, uma licenciatura de Estudos Gerais, colmatará essa lacuna (em Português gap, e peço desculpa), se obedecer a requisitos essenciais: o ensino e prática da nossa Língua, o estudo das diversas ciências e humanidades, que possam continuar o que se aprendeu no Secundário, e nas fases anteriores, com uma ratio variável de Humanidades, desde Línguas Clássicas a História, Filosofia , Matemática, Física e Química, e certamente outras disciplinas, conforme o ramo do Saber que o aluno quiser seguir. Evitava-se, desta forma, que cedo demais se tivesse de proceder à escolha vocacional; não se permitia, com enorme vantagem, que acontecesse o que sugere o título de um artigo de Alan Brinkley , Historiador e antigo Decano da Universidade de Columbia (Nova Iorque), Metade de uma Mente: é Coisa Terrível Desperdiçá-la.” Subtítulo: “A Ideia de que temos de escolher entre Ciência e Humanidades, é Falsa.” Está isso a acontecer com as novas gerações, que terão cada vez maior dificuldade em compreender o mundo e os povos que as rodeiam, devido à ignorância dos acontecimentos do Passado e do Presente e sobretudo da natureza real do Ser Humano.   

  • Teresa Patrício Gouveia, adminstradora da Fundação Calouste Gulbenkian, antiga ministra dos Negócios Estrangeiros, antiga Secretária de Estado da Cultura, membro do Conselho Consultivo da Licenciatura

 

A estrutura agora proposta reconduz e reconcilia o ensino com o conceito de unidade do saber que presidiu à criação da Universidade e que cada vez mais inspira e conduz a investigação contemporânea em todos os domínios  . . .  Hoje, a fluidez entre as fronteiras das disciplinas científicas criando terrenos híbridos de investigação e conhecimento é já uma realidade e configura o desenho institucional dos muitos centros de ciência. A procura de uma coerência transdisciplinar de explicação da realidade, mais vasta, que abranja também as ciências sociais e as humanidades, é o  grande desafio intelectual do nosso tempo.
Este modelo garante os valores essenciais de liberdade e autonomia na construção do percurso académico. Permite que . . . ali cada um encontre o que não procurava, o que não sabia que existia. Permite, pois, descobrir.
A estrutura proposta para a nova licenciatura responde também mais adequadamente aos simples requisitos de gestão e utilização da informação hoje disponível, e prepara para a complexidade e para a cooperação, conceitos hoje cada vez mais reclamados pela sociedade global.
Prevejo sucesso para esta licenciatura. O que poderá também significar a atracção de alunos de outras proveniências e nacionalidades, contribuindo assim para a progressiva internacionalização da universidade portuguesa.

  • Hans Ulrich Gumbrecht, Albert Guerard Professor of Literature, Stanford University, doutor honoris causa pela Universidade de Lisboa:

There are three main reasons . . .  why I believe that you are on to a decisive step within the European context:
In the first place, the continental tradition, especially after its latest reform movements [above all “Bologna”], seems to establish a highly problematic equation between professional training and academic studies. In practice, this may lead to the abandonment of the Enlightenment concept and ideal of “Bildung.”

Secondly, I believe that the European institution confronts beginning students with the tendentially irreversible decision of choosing a profession much too early. This fact is already producing very high economic costs and an even more difficult to justify toll on the students’ psychic situation.

Finally and as we all know, we are living in a present and heading into a future where the idea of an entire life exclusively dedicated to one (and only one) profession will become increasingly eccentric and obsolete. With the almost infinite number of choices available, our existential situations have become more complex – and this requires, quite urgently, a greater flexibility within academic studies (a flexibility that your proposal seems to produce in an almost palpable way).

For all these reasons (and I am not even talking about potential advantages of the new structures for the dimension of “research”), I would like to encourage you and the Administration of the Universidade de Lisboa, as strongly as possible, to continue working into this new direction.

 

  • Manuel Sobrinho Simões, médico, professor e director de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina, director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto,  membro do Conselho Consultivo da Licenciatura

Um editorial recente da Nature, sugestivamente intitulado “Mind the gap” chamava a atenção para a necessidade de não separar as chamadas ciências exactas das humanidades se queremos enfrentar com sucesso os desafios “da” sustentabilidade: demografia, clima, catástrofes naturais, escassez de recursos, desordenamento de território, pobreza,...  Esta preocupação tem encontrado eco nos mais variados fora com uma deriva muito interessante no sentido de garantir essa transversalidade em termos de formação-universitária-de-base. É essa transversalidade,  com as ciências fundamentais perspectivadas pela literacia, a filosofia, a história,…, em suma, pela Cultura, que os Estudos Gerais da Universidade de Lisboa se propõem garantir aos seus alunos,  preparando-os para segundos e terceiros ciclos de  índole mais específica e profissionalizante. Eu, se tivesse 18 anos, embarcava na experiência.

  • George Steiner, ensaísta, Extraordinary Fellow, Churchill College, Cambridge University, doutor honoris causa pela Universidade de Lisboa

The gap between the humanities and the sciences is the most worrying, the most damaging aspect of our present academic situation, but much more than academic.
. . . Never forget this could have been another story.  Plato says on top of the gate of the Academy “Let no man enter here who does not know Geometry.”   That is Plato.  And to Aristotle it was completely obvious that you had to study some science while studying metaphysics, while studying poetics and literature.
The separation has become in some ways catastrophic.  Do not say that it is too difficult, that it can’t be done: of course it can be done.